Martha Medeiros em “Poesia reunida”
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olhei para dentro de mim, me vi quebrada, dilacerada. os ossos corrompidos, as veias estouradas. me sentia só, as companhias eram vazias, a convivência humana havia se tornado um peso, eles haviam me assassinado.
diante da cena fatal, arranquei tudo o que já não me pertencia. me refiz, pedaço por pedaço.
a sensação de deixar a antiga eu para trás queimava como ácido nas vias respiratórias, mas era necessário.
precisei passar por falhas no sistema e paradas cardíacas, mas eu me recriei. agora, não sou aquela que eles destruíram, por favor, você, se apresente, eu não sou mais eu.
Foi numa tarde cinzenta de um dia qualquer em que a vida seguia vagarosamente seu rumo e que o silêncio dominava aquele pequeno lugar, que um pássaro amarelo pousou na minha janela.
olhou-me nos olhos, parecia sorrir, ria de mim:
“pobre coitada, enjaulada num corpo pesado, numa caixa de cimento, sonhando com o céu”
ele me deu as costas, abriu as asas douradas e partiu.
Ah! que inveja me deu… Quem me dera poder voar assim, sentir a imensidão nas asas e carregar a liberdade no coração.






